A profissionalização do sistema produtivo e o dinamismo comercial das floriculturas no Brasil são fenômenos relativamente recentes. Isto explica, em parte, o ainda baixo consumo de flores no país, com gasto per capita de R$ 35 ao ano, muito menor do que o da Europa, por exemplo, que chega a R$ 190. Por outro lado, o elevado espaço potencial para crescer associado aos avanços tecnológicos sustentam as taxas de crescimento do setor mesmo em um cenário de crise econômica. No ano passado, o faturamento avançou 7% sobre 2016. E a previsão é de mais 8% de ganho neste ano. “A inovação em toda a cadeia, desde o plantio mais inteligente que melhorou a qualidade do produto, até a ponta final de venda são essenciais ao bom desempenho do mercado de flores”, diz Kees Schoenmaker, diretor do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor). O executivo afirma, contudo, que houve desaceleração no ritmo. A crise fez a expansão de 16%, em 2012, recuar aos atuais 7%, “ainda ótimo”, com vendas de R$ 7,3 bilhões. Schoenmaker destaca que o mercado viveu anos de muita transformação, com novos pontos de venda surgindo como hipermercados e quiosques, e mudanças nos hábitos de consumo. Em relação às floriculturas, a sobrevivência neste cenário, diz o executivo, tem relação direta com a capacidade de inovar e acompanhar tendências. “Quem não se adaptou teve problemas, mesmo com o setor em expansão”, diz Shoenmaker. Presente no centro de Campinas (SP) há 80 anos, a Camp Flores, que inicialmente decorava túmulos e eventos e hoje só faz venda direta, é um exemplo de floricultura com capacidade de adaptação. As maiores mudanças, explica a sócia e neta do fundador, Ana Erbolato, passa por gestão de estoque e atenção às novas demandas. “As pessoas buscam bem estar, algo que possam cuidar em casa e investimos em plantas pequenas, com mudas resistentes. Plantas que trazem boas energia e purificam o ar também são tendências”, afirma Ana, que atribui a mudança no mix de produtos à longevidade da floricultura. A gestão do estoque também é essencial. Com os fornecedores localizados em Holambra, perto de Campinas, as compras são frequentes para evitar perdas que já foram de 30% na Camp, mas hoje não passam de 10%. A consultora do Sebrae Tais Camargo, acrescenta como inovações o surgimento de novos modelos de venda. “Há pequenos quiosques surgindo em shopping e supermercados nos últimos anos, o que exige que as floriculturas se diferenciem no atendimento e na qualidade do produto”, diz. A consultora cita novas oportunidades que precisam ser exploradas. “O mercado de paisagismo para condomínios e prédios cria boas oportunidades”, afirma. Há diferenças relevantes entre os mercados, que precisam ser levadas em conta, explica o florista Roberto Wyller Pena. Depois de trabalhar por mais de 30 anos em Nova York, Pena voltou ao Brasil em 1982 e montou a Scarletti, floricultura instalada na rua Haddock Lobo, em São Paulo. Mas no ano passado, ao voltar à terra natal, Belo Horizonte, tentou reproduzir o modelo, mas não deu resultado. “O mineiro não tem o hábito paulista de presentear com flores, e tive de mudar o projeto”, explica Pena. A Flor por Roberto Pena hoje faz apenas eventos na capital mineira. “O mineiro adora festas e me adaptei para sobreviver”, diz. Na área de eventos as perdas são mínimas. “Só compro o que irei consumir.” Outra experiência na capital mineira, mas na direção contrária, foi a da Flora Mangabeiras, que surgiu em um bairro novo, focada em paisagismo, mas hoje só vende arranjos. A crise na empresa foi “bem difícil”, explica Danilo Queiroz Souza Ferreira. “Tivemos de reduzir o tamanho da loja, as vendas caíram 50% no ano passado, mas agora estão estabilizadas.” Para voltar a crescer, a estratégia foi reforçar vendas on-line e criar um ponto mais próximo do fornecedor, para reduzir custo logístico e perdas. A capacidade de inovar sempre é considerada por Clóvis Souza, da Giuliana Flores, como a essência do sucesso da empresa que tem 28 anos no mercado. O empresário montou a empresa aos 19 anos em São Caetano (SP), uma loja com apenas 32 m2 que hoje tem 600 m2. “Era um mercado adormecido e cheguei com muito gás, fazia panfletagem, depois em 2000 fui para a internet com catálogos e na sequência vendas”, lembra o executivo. O pulo do gato veio com uma parceria com o Bradesco para incluir ofertas da Giuliana nos extratos bancários. Hoje, a Giuliana tem e-commerce, três lojas físicas e 20 quiosques, empreitada iniciada no ano passado. “Os quiosques seguem o modelo omnichannel, com compra pela internet e retirada no local, ou compra no quiosque com delivery. Segundo ele, antes dos quiosques, as lojas respondiam por 10% do faturamento. O forte eram as vendas on-line. Hoje, as vendas físicas chegam a 28%.
Fonte: Valor